a noite sentou-se ao meu lado e ainda que não a quisesse, veio me fazer companhia. não há silêncio no mundo e há quem silencie, mudo. a chuva, o fogo ardendo atrás de mim, o ressonar morno do cão, o remexer de cobertores entre as pernas do homem deitado, os cliques e toques da madeira da casa, o vento que sopra suas angústias e minhas saudades, o mar ao longe inventando ou mais uma onda ou menos um barco, são todos ruídos da noite, são todas as conversas entre ela e eu. nada pode ser mais barulhento do que o silêncio.
acabo de fechar as páginas do livro e suas histórias mantêm-se vivas dentro da minha cabeça. Pedro Juan Gutierrez, o escritor, chegou tão próximo de mim com suas histórias quanto poderia chegar se as contasse pessoalmente. é tanta intimidade que me pergunto quantas pessoas das quais conheço já se mostraram reais. há mais realidade nos livros de P.J.G. do que nas pessoas de carne e osso. ou será que há mais realidade na vida de P.J.G. do que na vida que me interpreta?
o vento intensifica seus lamentos fazendo os outros gritarem por ele. as telhas e vidros reagem com força e as árvores balançam suas folhas até que a luz da rua possa entrar e sair pelas janelas da casa como que levadas pela música. olho para todos os lados procurando um vestígio de gente, mas o que sempre encontro é o que não quero encontrar: a noite, a chuva e o vento.
sopra dizer
posted by Naiana Alberti at 11:35 PM
a felicidade, quando é felicidade, nos traz a sensação de que nunca vai acabar, mas sempre passa. a tristeza, quando é tristeza, nos traz a sensação de que nunca vai acabar e mesmo que se esconda atrás da felicidade, ela nunca passa. há sempre um resquício de tristeza, há sempre uma ilusão de felicidade.
sopra dizer
posted by Naiana Alberti at 11:15 PM
A morte é uma experiência solitária.
sopra dizer
posted by Naiana Alberti at 4:13 PM
leve o tempo que me leva como leve é o tema da música que me leva. às vezes e só às vezes ruído da rua ruindo o silêncio. quebra. desvio o olhar da tela e outra tela se abre. ninguém. livro alto, bolsa na favela, pássaro e memória. de quando éramos quatro. de como somos dois. da solidão de sermos só. e nada me conforta além das mãos e da companhia do deletar, salvar, copiar. são tantos os atalhos para a vida mas descobrimos logo que todos eles nos levam e nos levarão sempre para o mesmo fim. pense na falta de pontuação, coerência e gramática. depois deslize os olhos aos erros, errante nas linhas, feliz na construção. quando conseguirmos esquecer do outro, romperemos os muros que nos prendem ao cotidiano de nós mesmos.
sopra dizer
posted by Naiana Alberti at 11:18 PM